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A Odisseia de Ulisses: Lições de Liderança Para o Síndico Profissional

Liderar assertivamente envolve uma série de habilidades e competências por parte dos indivíduos que precisam exercer esta função essencial num mundo de relacionamentos humanos entre pessoas de campos, interesses e perspectivas distintas de vida. Debater liderança, empreendedorismo, supervisão e temas afins já é uma prática de quem vos escreve, afinal, atuo como professor universitário e da educação básica, espaços onde liderar é uma missão cotidiana, tendo em vista exercer a prática da melhor maneira possível para evitar danos na aprendizagem e na perpetuação dos conteúdos expostos e refletidos em sala de aula. A inspiração para conceber a reflexão que você, caro leitor, acompanha, veio de uma reunião com a facilitadora do módulo Supervisão e Liderança, Norma Fontes, também psicóloga, consultora e pesquisadora universitária, profissional que ao organizar a sua atividade nas turmas do Curso de Formação para Síndico Profissional da ACS Condomínios, traz logo na abertura de sua apresentação um conjunto de elementos que fazem um líder exemplar, elencando boa comunicação, saber delegar atribuições e responsabilidades, planejar e administrar bem o tempo, compreender estratégias efetivas de relações interpessoais da equipe liderada e gerenciamento de conflitos com inteligência emocional.
 
Sobre Ulisses e sua Odisseia
 
O poema Odisseia foi atribuído, ao longo da evolução histórica das narrativas ocidentais, ao poeta Homero, uma figura que supostamente atuava na Grécia antiga há muitos séculos. Não se sabe exatamente se o autor existiu, mas uma coisa é certa: a saga de Ulisses, cantada em 24 cantos, chegou ao contemporâneo por meio de resgates realizados por historiadores, críticos literários e outros agentes sociais que mantiveram essa trajetória mítica, alegórica para reflexão da humanidade em seus processos evolutivos. O poema narra o retorno de Ulisses, após os impactos da Guerra de Troia, para Ítaca, ilha onde reina ao lado de sua esposa Penélope e do filho Telêmaco. Antes de viajar, num rompante de arrogância, o herói desrespeita o deus dos mares, Poseidon, dizendo que não dependeu de nenhuma força divina para ganhar o conflito que tinha como propósito, resgatar Helena, a mulher de Agamenon, sequestrada pelos troianos. 

Irado com a postura ingrata de Ulisses, o deus em questão castiga o herói grego, desafiando a sua jornada de retorno para casa. A jornada de alguns dias se transforma numa saga de dez anos. Enquanto isso, filho e esposa aguardam ansiosamente, ameaçados por outros homens da ilha que pretendem tomar posse do trono do herói e governar Ítaca baseados em interesses particulares. Na viagem desafiadora, o personagem passa por diversos testes de resistência, mas exibe astúcia, inteligência, força e perseverança diante de tantas situações embaraçosas. Ele vai para o conflito com um planejamento, mas as coisas mudam e impedem que ele se mantenha inerte, tendo que agir conforme novas configurações se estabelecem, tal como nós, na contemporaneidade, frente aos impactos da pandemia da covid-19 que nos acompanha desde 2020 e a prática dos síndicos profissionais na dinâmica cotidiana dos condomínios, sempre a lidar com a equipe gerenciada e os condôminos, seres humanos com todas as imprevisibilidades possíveis, responsáveis pelo remanejamento que temos que aplicar, algo próprio da função de liderança.

Antes de chegar em Ítaca, Ulisses enfrenta o ciclope, uma criatura com apenas um olho, metáfora aqui para o olhar limitado de pessoas que nos desafiam em nosso caminho, trazendo sempre a necessidade de ampliação do olhar. Circe, a deusa feiticeira que transforma os homens em animais, é um obstáculo da jornada, tal como Calipso, capaz de manipular o tempo a seu favor, uma das palavras-chave mais desafiadoras em nossas atuações profissionais contemporâneas. Além da questão do tempo, temos os projetos sedutores que são alegorizados no poema clássico pela representação das sereias, criaturas que a todo tempo almejam desvirtuar o herói e seus liderados, retirando-os do foco central, isto é, a viagem de retorno para casa, o empreendimento maior dessa história que, tal como mencionado, até hoje nos inspira. Os mares navegados pelo herói ilustram a nossa vida pessoal e profissional, em simbiose, com momentos de calmaria e outros de muita intensidade. Cabe a nós, a adequação. Além disso, a paciência, uma virtude, figurada por Atenas, a deusa mentora da sabedoria, presente em algumas breves aparições para lembrar ao herói que o seu propósito requer renúncias, dedicação e sacrifícios, em prol do bem comum.
E o Síndico Profissional com tudo isso?
 
Poesia, cinema e outros recursos do campo da cultura e do entretenimento, nos tempos corridos de hoje, são materiais considerados supérfluos por muita gente. Sugiro, ao leitor, não pensar desta forma. Inspire-se e inspire, concomitantemente, a sua equipe. Tenha um momento para reflexões, pense que associações do tipo podem não apenas melhorar a sua atuação, mas também permitir que você tenha repertório para conversar com os seus colaboradores, além de repensar constantemente as suas práticas. O poema de Homero é um manancial para pensar como o líder é aquele que utiliza a influência interpessoal dentre de situações específicas para no processo comunicacional, alcançar um ou mais objetivos demarcados. Traço inato ou circunstancial? As habilidades de liderança podem ser aprendidas? A trajetória de Ulisses responde tudo isso. Leia.
Essa concepção está no módulo de Supervisão e Liderança, da facilitadora Norma Fontes, mencionado na abertura. Liderar, por sua vez, não é uma tarefa qualquer. É algo que requer firmeza, compreensão geral do campo de atuação, para que o líder possa fazer como Ulisses, o herói grego, personagem capaz de cultuar as suas virtudes, mas também refletir sobre suas fragilidades, atuando sempre com intencionado em influenciar o outro, maximizando as possibilidades de alcance do que é objetivado e, ao mesmo tempo, permitindo o desenvolvimento pessoal de todas as partes envolvidas. A gestão condominial é como a trajetória do poema homérico. Moradores, visitantes e colaboradores se comportarão como Circe, Hermes, Calipso, Hélio, dentre outras figuras mitológicas. Caberá ao líder, inspirado pelos ideais de Ulisses, se manter firme no mastro de sua embarcação, sem se deixar levar pelo “canto das sereias”.
 

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