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O Síndico Vai ao Cinema: Duplex (2003)

O cinema é um instrumento que vai muito além do entretenimento. No campo educacional, dizemos que as narrativas ficcionais e documentais funcionam como aprendizagem concreta, isto é, as pessoas envolvidas no processo aprendem com o que experienciaram e, em alguns casos, utilizam as situações testemunhadas para aplicação em suas dinâmicas pessoais e profissionais do cotidiano. Por isso, selecionei a comédia estadunidense Duplex, lançada em 2003, como sugestão reflexiva para a atuação do Síndico Profissional em sua árdua tarefa ao administrar um ponto subjetivo que pode ser muito mais desafiador que um balancete ou execução de uma assembleia: o gerenciamento de conflitos, dispostos ao longo dos 100 minutos de filme.

Na trama, acompanhamos a história de um casal que acaba de realizar um dos sonhos mais desejados pela maioria das pessoas adultas que anseiam por liberdade, conforto e bem-estar: a casa própria, ampla, segura e aconchegante. Sob a direção de Danny DeVito, cineasta veterano que também possui longa experiência como ator, Duplex tem um texto com diálogos afiados, graças ao roteiro de Larry Doyle, responsável por estabelecer um conflito dramático logo nos primeiros instantes da narrativa. O casal Alex (Ben Stiller) e Nancy (Drew Barrymore) possuem economias guardadas, iniciam a compra da casa após a propaganda bastante persuasiva do agente imobiliário, mas descobrem que o local não é tão habitável como o esperado, pois apesar das dimensões e da boa localização, uma idosa é inquilina da parte superior deste duplex.
Como a lei não permite que eles a “despejem”, termo utilizado no filme diversas vezes, o jeito é vivenciar uma parte do lugar até que a senhora aparentemente gentil se desloque para outro lugar, ou então, como insinuado numerosas vezes, terminem naturalmente o seu ciclo de vida. A presença da personagem em si não é um grande conflito. Os problemas de verdade começam quando a figura ficcional transforma o cotidiano do casal numa provação grandiosa. Ela assiste televisão num volume altíssimo, haja vista a sua condição de pessoa com razoável deficiência auditiva, tem uma arara nada amigável como animal de estimação, recebe visitas das companheiras de igreja que ensaiam com instrumentos de metais, uma apresentação para o culto numa data agendada para o futuro próximo, além de incomodar diariamente Alex, homem que trabalha em casa como escritor e precisa lidar com o apertado prazo para a entrega do manuscrito de seu próximo romance.

Divertido, com alguns momentos politicamente incorretos, mas parte de uma narrativa ficcional com todas as suas liberdades criativas, Duplex é uma opção interessante para você, na função de Síndico Profissional, propor aos funcionários e demais pares profissionais, como opção de entretenimento para reflexão sobre gestão de conflitos em condomínios. Lançado há quase duas décadas, a produção traz diversos pontos para um bom debate, em especial, uma possibilidade comparativa das celeumas originadas pelo desenvolvimento do trabalho em home office em nosso atual cenário pandêmico, era de limiares cada vez menos táteis no que diz respeito ao que antigamente separávamos por ambiente de trabalho, de lazer e doméstico.

Ademais, a comédia pode ser útil para algo que no campo educacional, chamamos de aprendizagem baseada numa situação-problema. Indicar ou até exibir em reuniões formais, mas com toques de descontração, e propor aos presentes, soluções para a resolução dos conflitos abordados, pode ser uma ótima alternativa para estabelecer diálogos com sua equipe e ainda aprender por meio do entretenimento. Os acontecimentos dispostos na trajetória de Alex e Nancy são ilustrações de situações corriqueiras na gestão condominial, tais como um vazamento no andar superior que prejudica a unidade inferior, o volume alto de aparelhos eletrônicos de quem assiste televisão, joga videogame ou toca instrumentos musicais dentro de casa, bem como visitantes barulhentos e tantas outras inconveniências que, infelizmente, são parte da nossa vida em sociedade. Ao leitor, uma garantia: em Duplex, a sessão é divertida e no desfecho, permite reflexão.

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