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O Síndico Vai ao Cinema: Trair e Coçar é Só Começar (2006)

Traduzida do teatro para a linguagem cinematográfica, a comédia Trair e Coçar é Só Começar ganhou formato audiovisual em 2006, sob a direção de Moacyr Góes, cineasta que orquestra as situações inusitadas do roteiro escrito por Jandira Martini e Marcos Caruso, este último, autor da versão teatral que embasa o desenvolvimento do filme. Revisitado muitos anos após o primeiro contato com a narrativa, foi possível perceber um painel de situações divertidas e interessantes aos interessados em administração condominial. Quando um condômino chateado deixa transparecer a sua percepção contrária diante de um acontecimento que em seu julgamento, fere o Regimento Interno e o bom-senso no prédio, percebemos o quão aquela breve passagem é ilustrativa para discussões sobre o síndico profissional e o gerenciamento de conflitos. As possibilidades se ampliam quando uma pessoa na condição de gestão interpela a tal pessoa e pede que uma reclamação seja registrada no livro de ocorrências, para que as medidas cabíveis sejam atendidas.

Na mesma linha do estadunidense Duplex, o filme em questão é uma opção de entretenimento ligeiro, com traços de fonte de estudo para quem deseja pavimentar um caminho mais sólido e culto na caminhada rumo ao posto de síndico profissional. Para quem já atua, eis uma opção de ampliação dos horizontes para ser versátil quando precisa agir. Como material dramático para cinema, a narrativa desenvolvida em Trair e Coçar é Só Começar se apresenta irregular. O elenco está exagerado, as situações são demasiadamente burlescas e alguns personagens, caricatos e comprometedores. A nossa preocupação, no entanto, não é se ater aos meandros da análise estética e dramática desta comédia, mas observar como situações inusitadas de nossa dinâmica cotidiana no interior de um condomínio, seja no papel de morador, funcionário ou síndico profissional responsável, estão presentes ao longo dos breves 82 minutos da produção. Ademais, mesmo com as falhas observadas por quem vos escreve, isto é, alguém atuante na área da crítica cinematográfica, por isso, o destaque para as inadequações da estrutura do que nos é apresentado, a comédia com tom novelesco é um entretenimento aceitável, possível de garantir ao espectador uma experiência de lazer razoável, além de permitir o estabelecimento de algumas reflexões sobre a gestão de conflitos dentro de uma perspectiva condominial.

Observe. Na história, acompanhamos a trajetória cheia de trapalhadas de Olímpia, personagem interpretada por Adriana Esteves, uma empregada doméstica confusa e bastante intrometida, além de falastrona e cheia de sonhos. Ela trabalha para Inês (Bianca Byington) e Eduardo (Cássio Gabus Mendes), arquiteta e médico cardiologista, respectivamente, casal que está em vias de comemoração de aniversário de casamento. Enquanto ajuda a sua contratante a organizar o jantar destas bodas de 15 anos, Olímpia se envolve numa maratona de acontecimentos inusitados, onde nada parecer ser o que de fato é. Ao pegar informações fragmentadas e interpretar os rascunhos de diálogos entre os personagens que atravessam o seu dia, ela é a representação cabal dos ruídos da comunicação numa figura humana. O problema é que a jovem não é a única culpada, pois estas figuras ficcionais que atravessam o enredo também não colaboram, sempre com frases e ideias incompletas, uma negação no campo da comunicação assertiva.

Diante do exposto, as crises surgem em cascata: o médico retorna de uma viagem e desconfia da infidelidade de sua esposa com o síndico do condomínio e, concomitantemente, a arquiteta desconfia que o seu esposo é infiel, haja vista um fragmento de conversa que Olímpia testemunhou e não conseguiu manter segredo. Neste processo, os amigos do casal, como convidados do jantar, juntamente com os moradores inconvenientes, o zelador, o porteiro e os entregadores se envolvem numa série de situações engraçadas, relativamente exageradas, mas possíveis de acontecer durante a gestão de qualquer síndico profissional do lado de cá das telas, no que chamamos de vida real. O filme, como já mencionado, em sua função de espelho para reflexões alegóricas sobre a nossa vida, traz por meio da representação um punhado de circunstâncias que qualquer síndico atuante ou no processo de formação profissional, provavelmente, já presenciou e até mesmo teve de lidar. Como disse Aristóteles na Poética, conflito é a base do drama. E nós, parte de um mundo de constantes choques de interesses interpessoais, sabemos que é algo também da realidade.

Com a produção, há a oportunidade de refletir sobre tudo isso e aplicar para multiplicar ideias. A pessoa na posição de síndico profissional pode utilizar trechos do filme numa reunião de funcionários, assembleia de moradores ou postagem na rede social do empreendimento habitacional onde atua, tendo em vista a oportunidade de fazer refletir, de maneira leve e descontraída, acontecimentos ficcionais que representam experiência reais. Inês, ao topar colaborar com a reforma do saguão do prédio onde mora, transforma a sua rotina numa alucinante jornada, ao ter que lidar com uma moradora enxerida que insiste em emular a arte grega nas pilastras, desaprovando a arte etrusca proposta pela arquiteta. Enquanto as confusões acontecem com a protagonista Olímpia, uma mudança ocorre num horário impróprio, situação que fere as regras da convenção, destacadas pelo porteiro que impede uma dançarina exótica de acessar uma das unidades, pois a visitante porta uma faca, arma que segundo o documento, deve ser proibido e sinalizado pelo responsável pela portaria, para evitar qualquer ocorrência violenta no local. Em linhas gerais, são muitas as situações condominiais em Trair e Coçar é Só Começar.

Assista e reflita. Combinado?
 
 

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